Falar em Patxôhã, cortar língua
PDF

Palavras-chave

caminhadas pataxó
vocabulários
retomadas
empréstimos linguísticos

Como Citar

Gonçalves, A. A. O. . (2025). Falar em Patxôhã, cortar língua. Tellus, 24(53). https://doi.org/10.20435/tellus.v24i53.1000

Resumo

O objetivo deste texto é apresentar o movimento de retomada da língua entre os Pataxó. Compreender como esse é um movimento difuso que demanda caminhadas e conversas com os/as anciãos/ãs e ao mesmo tempo é heterogêneo, os/as pesquisadores/as do Atxôhã (grupo de estudiosos/as pataxó da língua) reconhecem palavras em Patxôhã (língua de guerreiro) entre seus inimigos ancestrais os Botocudo (atuais Krenak) e os seus tradicionais aliados na luta, os Maxakali. Se antes a circulação desses povos na aldeia mãe de Barra Velha (BA) favorecia trocas e empréstimos linguísticos entre uns e outros, tuhutary (atualmente) a retomada da língua na comunidade Gerú Tucunã (Açucena-MG) é atravessada pela tradução de diferentes saberes: a Cartilha de Patxôhã, a Cabaninha do Segredo, os cantores da aldeia e a ação dos línguas de hoje – os/as professores/as de Patxôhã na kijetxawê (escola). Esses diferentes agenciamentos mantêm a língua cortada dos Pataxó longe dos seus possíveis inimigos. Entre os txihi (gente em Patxôhã) de Tucunã cortar língua é cortar a língua do colonizador, recusar o monolinguismo em favor do Patxôhã e da variante regional do português no Leste de Minas.

https://doi.org/10.20435/tellus.v24i53.1000
PDF

Referências

BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. [Obras escolhidas, volume I]. 3. ed. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987. p. 197-221.

BOMFIM, Anari Braz. Patxohã: a retomada da língua do povo Pataxó. Revista LinguíStica, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 303-327, 2017.

BOMFIM, Anari Braz. Patxohã, “língua de guerreiro”: um estudo sobre o processo de retomada da língua pataxó. 2012. Dissertação (Mestrado em Estudos Étnicos e Africanos) - Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2012.

BRAZ, Uilding Cristiano. Iõ êtxawê ũpú Atxôhã Patxôhã uĩ Kijẽtxawê Txihihãi Pataxó

Arahuna’á Makiami: hãtӧ uhãdxê ũpú nioniêmã fap´bwá uĩ atxôhã Patxôhã. O ensino de Língua Patxôhã na Escola Indígena Pataxó Barra Velha: uma proposta de material didático específico. 2016. Monografia (Formação Intercultural para Educadores Indígenas) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2016.

CAMPELO, Douglas Ferreira Gadelha. Das partes da mulher de barro: a circulação de povos, cantos e lugares na pessoa tikmũ’ũn. 2018. 457p. Tese (Doutorado em Antropologia Social) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2018.

CARDOSO, Thiago Mota; PATAXÓ, Kaiones Santos; PATAXÓ, Raoni Bras; PATAXÓ, Maria das Neves. Os Pataxó frente ao naturalista Maximilian zu Wied-Neuwied: subversão do tempo, retomada da “cultura” e os museus etnográficos. Cadernos de Campo, São Paulo, v. 28, n. 1, p. 155-183, 2019.

CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. Xamanismo e tradução: pontos de vista sobre a floresta amazônica. In: CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. Cultura com aspas e outros ensaios. São Paulo: Ubu Editora, 2017. p. 102-115.

CARVALHO, Maria Rosário Gonçalves de. Os Pataxó Meridionais: uma breve recensão histórico bibliográfica. In: AGOSTINHO DA SILVA, Pedro et al. Tradições étnicas entre os Pataxó no Monte Pascoal: subsídios para uma educação diferenciada e práticas sustentáveis. Vitória da Conquista: NECCSos; Edições UESB, 2008a. p. 15-43.

CARVALHO, Maria Rosário Gonçalves de. Relatório circunstanciado de identificação da TI Pataxó do Monte Pascoal. Salvador: Universidade Federal da Bahia/Associação Nacional de Ação Indigenista (ANAI), 2008b.

CARVALHO, Maria Rosário Gonçalves de. Os Pataxó de Barra Velha: seu subsistema econômico. 1977. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) - Universidade Federal da Bahia, Salvador, 1977.

CERTEAU, Michel de. Práticas de espaço. In: CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1998. p. 169-220.

CESAR, América Lúcia Silva. Lições de abril: a construção da autoria entre os Pataxó de Coroa Vermelha. Salvador: EDUFBA, 2011.

CONCEIÇÃO, Natália Braz da. Uma reflexão sobre a variação linguística na língua Patxohã do povo pataxó. 2016. Monografia (Formação Intercultural para Educadores Indígenas) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2016.

CRUZ, Alessandro dos Santos. A memória viva das interações dos povos-parentes Maxakali-Pataxó. 2015. Monografia (Formação Intercultural para Educadores Indígenas) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2015.

CUNHA, Jonatan Braz. Iẽ Atxôhã Patxôhã: upãp hãwmãỹtây itsã ãpiäkxex – A

língua patxôhã: das palavras aos números. 2018. Monografia (Formação Intercultural para Educadores Indígenas) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs. [volume 5]. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2012.

EDELWEISS, Frederico. Curt Nimuendaju na Bahia. Universitas, Salvador, 8/9, p. 277-280, 1971.

FIOROTT, Thiago Henrique. A morte do Uatu: os impactos do desastre da Samarco/Vale/BHP sobre a sustentabilidade do povo Krenak. 2017. Dissertação (Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais) - Universidade de Brasília, Brasília, 2017.

FRANCHETTO, Bruna. Língua(s): cosmopolíticas, micropolíticas, macropolíticas. Campos – Revista de Antropologia, Curitiba, v. 21, n. 1, p. 21-36, 2020.

GONÇALVES, Antônio Augusto O. Trioká xohã – Caminhar guerreiro: a retomada dos Pataxó de Gerú Tucunã. 2022. Tese (Doutorado em Antropologia Social) - Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2022.

LOUKOTKA, Chestmír. A língua dos Patachos. Revista do Arquivo Municipal - RAM, São Paulo, v. 55, p. 5-15, 1939.

MATTOS, Izabel Missagia de. Civilização e Revolta: povos botocudo e indigenismo missionário na província de Minas. 2002. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) - Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, 2002.

MAXAKALI, Isael; MAXAKALI, Sueli. Desta terra, para esta terra. [Caderno de Leituras n. 107 - Série Intempestiva]. Belo Horizonte: Edições Chão da Feira, 2020.

NIMUENDAJÚ, Curt. Social organization and beliefs of the Botocudo of eastern Brazil. Southwestern Journal of Anthropology, Albuquerque, v. 2, p. 93-115, 1946.

PARAÍSO, Maria Hilda Baqueiro. Verbete Krenak. Enciclopédia dos Povos Indígenas no Brasil (PIB). Instituto Socioambiental (ISA), São Paulo, 2021.

PARAÍSO, Maria Hilda B. O tempo da dor e do trabalho: a conquista dos territórios indígenas nos sertões do leste. Salvador: EDUFBA, 2014.

PARAÍSO, Maria Hilda Baqueiro. Amixokori, Pataxó, Monoxó, Kumanoxó, Kutaxó, Kutatoi, Maxakali, Malali e Makoni: povos indígenas diferenciados ou subgrupos de uma mesma nação? Uma proposta de reflexão. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, n. 4, p. 173-87, 1994.

PATAXÓ, Katão. Trioká hahão pataxi – Caminhando pela história pataxó. São Paulo: Editora Garçoni, 2004.

PATAXOOP, Kanatyo; PATAXOOP, Liça. O grande tempo das águas. In: GOMES, Ana Maria; LIMA, Deborah; OLIVEIRA, Mariana; MARQUEZ, Renata. Mundos indígenas. Belo Horizonte: Espaço do Conhecimento UFMG, 2020. p. 134-169.

PERRONE-MOISÉS, Beatriz. Festa e guerra. 2015. Tese (Doutorado em Livre Docência em Etnologia Ameríndia) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.

POVO PATAXÓ. Inventário cultural pataxó: tradições do povo Pataxó do Extremo Sul da Bahia. Porto Seguro: Atxohã/Instituto Tribos Jovens (ITJ), 2011.

RIBEIRO, Rodrigo Barbosa. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença. 2008. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008.

RODRIGUES, Aryon Dall’Igna Rodrigues. Para o estudo histórico-comparativo das línguas Jê. Revista Brasileira de Linguística Antropológica, Brasília, v. 4, n. 2, p. 279-288, 2012.

RODRIGUES, Aryon Dall’Igna Rodrigues. Línguas brasileiras: para o conhecimento das línguas indígenas. São Paulo: Edições Loyola, 1986.

ROMERO, Roberto. A errática tikmũ’ũn_maxakali: imagens da Guerra contra o Estado. 2015. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, 2015.

SANTANA, Cleidiane Ponçada. Cantos tradicionais pataxó na língua Patxôhã. 2016. Monografia (Formação Intercultural para Educadores Indígenas) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2016.

SANTOS, Ariane Jesus dos. A contação de histórias tradicionais do povo pataxó na reserva da Jaqueira: a oralidade através dos tempos. 2016. Monografia (Licenciatura em Línguas, Artes e Literatura) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2016.

SANTOS, Erilsa Braz dos. A história da demarcação da Terra Indígena Barra Velha. 2018. Monografia (Formação Intercultural para Educadores Indígenas) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018.

TUGNY, Rosângela Pereira de. Escuta e poder na estética tikmũ’ũn Maxakali. Rio de Janeiro: Museu do Índio, 2011.

TXAYWÃ PATAXÓ, Antonildo Silva de Lira. Moykã Txihihãi Xaurumã Pataxó:

nioniemã atxohê ũpú etxawê uxé Pataxi Makiami. Jogos Indígenas Infantojuvenil Pataxó: um método de ensino em Aldeia Velha. 2019. Monografia (Formação Intercultural para Educadores Indígenas) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2019.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas canibais: elementos para uma antropologia pós-estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Xamanismo transversal: Lévi-Strauss e a cosmopolítica amazônica. In: QUEIROZ, Ruben Caixeta; NOBRE, Renarde Freire. Lévi Strauss: leituras brasileiras. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. p. 87-136.

Creative Commons License
Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.

Copyright (c) 2024 Antonio Augusto Oliveira Gonçalves